Posts

Uma visão sobre quatro etapas do seu aprendizado e desenvolvimento

Possivelmente você já ouviu a expressão “como andar de bicicleta”, mas o que ela significa na prática? Bom, às vezes, você nem sabe andar de bicicleta, mas a ideia principal desse dito popular é que não esquecemos o que uma vez foi aprendido. Contudo, tenho duas provocações: em que momento concluímos que a atividade foi então “aprendida”? Será possível “desaprender” alguma coisa?

Essas perguntas merecem uma reflexão mais profunda. Não é, ou não deveria ser, tão simples assim dar uma resposta para elas. Então, para ajudar na discussão, vou me embasar primeiramente em dois psicólogos: Paul R. Curtiss e Phillip W. Warren, que estudaram por muitos anos as etapas do desenvolvimento humano.

De acordo com a teoria deles, apresentada em seu livro behaviorista “The Dynamics of Life Skills Coaching”, o desenvolvimento poderia ser acompanhado pelo modelo de consciência competente, ou os estágios da competência. Porém, para entendermos melhor esse modelo, deixe-me definir aqui algumas palavras importantes para o resto do texto:

Primeiramente vamos definir “Consciência” e “Inconsciência”. Deve-se entender que consciência, de acordo com os autores, é ter ciência, ter conhecimento claro, entender de forma lúcida o que está acontecendo ou fazendo. Em outras palavras, para nós e nesse contexto, pode ser entendida como o momento, aquele instante, em que você precisa pensar para fazer a dada atividade. Desta forma, a inconsciência pode ser definida aqui como o oposto. O momento (instante) em que não existe a reflexão do que fazer para a tomada de decisão. 

Em sequência, vamos entender a ideia de “Competência” , que nada mais é do que um grupo de habilidades e conhecimentos para realizar uma dada atividade. Assim, ser competente é possuir tais habilidades e conhecimentos. Logo, ser incompetente é não possuir essas caracterísitcas. Vamos entender melhor com um exemplo: não faço a menor ideia de como cozinhar,ou seja, sou incompetente na atividade de cozinhar, pois não apresento tais habilidades. Porém, sei preparar uns drinks bem apreciados, ou seja, sou um competente (e quem sabe promissor) barman, por apresentar essa habilidade.

Desta forma, podemos apresentar agora o primeiro momento do estudo e chamá-lo de Período da Inconsciência da Incompetência. Em outras palavras, é o momento no qual a pessoa não sabe o que  deveria saber para executar a atividade. Ficou confuso? Eu explico!

Quando você pega uma bicicleta pela primeira vez na vida, você não sabe o que fazer para não cair ao andar com ela. Significa que você não sabe (não tem ciência – inconsciência) do que deveria fazer (competência), que, por sua vez, por você nunca ter feito tal atividade, você é incompetente em seguir os movimentos ordenados para se andar de bicicleta sem cair. Mas sabe qual a melhor parte dessa etapa? Não existe julgamento, você pode errar e cair quantas vezes for necessário. É o momento que, pensando na vida profissional (início de carreira), você está aprendendo tudo, errando muito e recebendo feedbacks para passar a ter ciência, a entender o que você está fazendo, por mais que não saiba ainda fazer direito.

Com isso, entramos no segundo momento: Período da Consciência da Incompetência. Sim, é quando você descobre e passa a entender os erros, os seus pontos fracos e, consequentemente, reluta e não concorda. Para Jung, seria a descoberta das suas sombras, de competências que você ainda tem dificuldade e gostaria de guardar em uma caixa para esquecer essas fragilidades. Ou, para Sócrates, é o notório momento que você descobre que “só sei que nada sei”.

Instintivamente, sempre fugimos do que nos faz gerar sensações ruins, como o joelho ralado ou, pior, um braço quebrado por uma queda de bicicleta. Para essas situações, aquelas rodinhas auxiliares nas laterais são muito úteis! Elas servem como apoio e suporte, como um ombro amigo que vai te dando tempo e ouvindo os seus pensamentos, mas sem deixar você cair. Por meio delas, aos poucos você aprende, adquire as habilidades necessárias e passa a ter todos os movimentos muito bem pensados, pedalada a pedalada.

Pronto, você é competente em andar de bicicleta.

Agora você tem ciência do que sabe fazer, podemos dizer que chegou ao Período da Consciência da Competência. A partir desse momento você vê a sua luz e é capaz de superar o terror da sua sombra; passa a saber, de fato, e entender no que você é bom.

Mesmo sendo clichê…. “a prática leva à perfeição”.

Finalmente, o quarto e último momento para o desenvolvimento proposto por Curtiss e Warren é o Período da Inconsciência da Competência. Traduzindo: a sua habilidade ficou tão clara e lúcida para o seu cérebro que ele não precisa mais se preocupar tanto e manda essa informação para outra região da cabeça, uma região para cuidar dos processos automatizados ou, para nós, inconscientes. Desta forma, quando o ciclista atinge essa etapa, ele não sente que esteja “pensando” para andar de bicicleta, mas apenas sobe e sai andando. Definitivamente não é mais, nem de perto, um desafio para ele.

Lógico que a história sobre aprender a andar de bicicleta, e até mesmo as rodinhas de apoio ao longo do texto, são metáforas. Mas a dinâmica que envolve essas etapas não é diferente de aprender a ler, a escrever, aprender uma linguagem nova – seja falada ou uma programação de computador… As nossas habilidades, sejam elas pessoais ou profissionais como um todo, estão conectadas. A jornada entre cada um desses quatro momentos que apresentamos é longa, mas a única coisa que você deve fazer, se deseja a fluência na atividade, é seguir em frente estudando e treinando.

Mas aposto que você está curioso – se já não se esqueceu – sobre aquela segunda pergunta: é possível “desaprender”? (Ah, esquecer não é a mesma coisa, mas falaremos disso em outro momento) Seria possível alguém que aprendeu a andar de bicicleta desaprender aquela ordem de movimentos que ficou gravada?

Para te ajudar a responder essa pergunta, indico que você assista a esse vídeo e depois me conte o que achou aqui nos comentários. Quero saber a sua opinião e resposta!