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A intenção deste artigo é levar você, professor a refletir sobre como anda sua estratégia para contribuir para a formação de alunos leitores. Ficou interessado? Vamos adiante?

“A leitura é um direito. não é um luxo, nem uma obrigação. A leitura é um direito, não um luxo das elites que possa ser associado ao prazer e a recreação, tampouco uma obrigação imposta pela escola. É um direito de todos que, além disso, permite o exercício pleno da democracia”. (FERREIRO, 2002. Passado e presente dos verbos ler e escrever.

O ato de ler é muito mais do que o simples processo de decodificação do código. Ler é, antes de mais nada, cultural. Cultural porque, apesar de ser um processo individual, só se aprende através da interação e intervenção de um par avançado.

“Ninguém gosta de fazer aquilo que é difícil demais, nem aquilo do qual não consegue extrair o sentido. Essa é uma boa caracterização da tarefa de ler em sala de aula: para uma grande maioria dos alunos ela é difícil demais, justamente porque ela não faz sentido”. (KLEIMAN, 2012, p. 22)

O ato de ler é muito mais do que o simples processo de decodificação do código. Ler é, antes de mais nada, cultural. Cultural porque, apesar de ser um processo individual, só se aprende através da interação e intervenção de um par avançado.

Através da leitura os alunos não aprendem apenas a ler, mas aprendem sobre a língua e as linguagens do mundo. 

O mundo é lido o tempo todo. A quantidade de imagens, letras, números e sons que se associam faz de todo ser humano que habita este planeta um leitor assíduo.

E, se ainda bebês já podem ser considerados leitores, uma vez que leem os movimentos, o tom de voz e o que está a sua volta, por que, ao iniciar a vida escolar, apresentam dificuldades para ler ou ainda dizem que ler é muito chato?

Qual será a diferença entre o mundo de fora e o mundo de dentro da escola?

A verdade é que entre a escola, a educação e principalmente o processo de ensino há um muro que não permite a conexão com o dia-a-dia vivenciados pelos estudantes, mas há algumas formas de transformar essa situação é uma delas e fazer do ato de ler uma ponte.

Para tanto, é preciso ir um pouco mais além dos objetivos secos sobre a leitura que se apresenta como meta a decodificação sistêmica dos símbolos que estão associados a sons, porque ler é muito mais do que memorizar que desenho (símbolo) corresponde àquele som e “juntar”. É preciso conhecer as características da linguagem escrita, que mudam conforme o gênero do texto. Não basta saber ler “Vovô viu a uva” para entender um jornal. É preciso conhecer esse tipo particular de linguagem.

Assim sendo, é preciso que o professor se abra para as estratégias para ensinar a ler a partir de diferentes gêneros textuais e promova um ambiente acolhedor e desafiador para os estudantes.

Acolhedor em razão de proporcionar o aconchego para o ato de aprender a aprender e aprender a ler, de ter fácil acesso a vários livros, revistas, gibis, receitas impressas e também digitais. Que o estudante se sinta metaforicamente abraçado nesse lugar.

Desafiador porque é importante, em qualquer idade, o estímulo na certa medida para avançar e ser desafiado é uma estratégia que sempre dá certo, se colocada em razão do objeto/objetivo a ser alcançado e não em relação.

A postura de um professor leitor também é de suma importância uma vez que estudantes, especialmente os pequenos aprendem através do exemplo e da observação.

Um professor que ama ler, que conversa sobre livros, escritores, ilustradores, que apresenta sua opinião sobre a obra, que ouve a opinião do outro sobre a mesma obra, que troca com seu aluno impressões e marca da escrita literária, desperta no estudante, no outro vontade de ver/ler tudo aquilo que ele viu, de sentir tudo aquilo que ele sentiu. Esse é o verdadeiro comportamento leitor.

É possível que o estado de encantamento em qualquer gênero textual, seja ele impresso ou digital.

Já imaginou se alguém ler uma receita de uma comida maravilhosa como quem narra um jogo de futebol? Será que você vai conseguir imaginar aquela delícia? Ou sentir imaginariamente o aroma? Acredito que não.

Ensinar a ler requer um comportamento leitor e uma vasta paciência, pois não é do dia para a noite, como decorar a tabuada por exemplo, que esse estado de encantamento é despertado. 

A boa notícia é que “ver poesia” em tudo que se lê é um maravilhoso caminho sem volta e que ele se multiplica a cada pessoa encantada.

Dessa forma, o trabalho com diversos gêneros textuais é imprescindível para formação de leitores que mais do que decodificam, entendem, compreendem e sentem prazer em ler.

E, ler de tudo. De anúncio nas redes sociais a poesia lírica ou dissertações científicas. Ler porque ler é bom; porque amplia o repertório, porque faz pensar sobre, porque é boa companhia, porque é viagem sem sair de casa. 

E professor, por favor, não acredite que incentivo ao aluno é a nota da prova do livro. Isso só afasta o estudante do prazer do ato de ler.

Assim sendo, vamos apontar algumas formas de inspirar os estudantes a se tornarem leitores “encantados” pelo ato de ler:

  • Permita-se apaixonar pela literatura: qualquer um pode ser mediador de leitura, desde que seja também um leitor, afirma a escritora, livreira e mediadora espanhola Lara Meana “É como um vírus, só o transmite quem tem”. Qualquer um pode mediar e incentivar o outro.
  • Busque o motivo: como é que você, professor, tornou-se amante dos livros? Certamente, na infância, ouvindo uma história que um bom leitor contava ou ainda em uma leitura livre e por opção. Resgatar seus motivos pode levá-lo ao entendimento que ninguém começará por Camões ou Machado de Assis, mas chegará nos clássicos se houver o despertar do estado de encantamento ou nunca passará do horóscopo do dia se for por obrigação e cheio de amarras. 

Em recente entrevista ao Blog da Brinque, Lara Meana contou que costuma perguntar aos mediadores de leitura quais são suas memórias leitoras. Em geral, disse ela, há um conto, uma história, uma narrativa oral, um momento que marca o início de uma relação com a leitura. Resgatar essa memória pode ajudar a compreender como apaixonar as crianças e abrir-lhes caminhos.

“Ler em voz alta para as crianças, seja ficção ou seja não-ficção, cercá-las de histórias ou de informação que as interesse não é garantia de que irão continuar lendo, mas transforma-as em leitores no presente. Quando uma criança escuta uma história ou se senta ao nosso lado para ver as imagens do livro ou ouvir as palavras que as acompanham, também está participando da leitura, está lendo ainda que sem saber ler”.

  • Não subestime o leitor: quem disse que o livro é muito grande para crianças ainda pequenas? A leitura em capítulos é uma ótima estratégia para aguçar a curiosidade e deixá-los atentos para os próximos episódios.

Segundo Rubem Alves, a leitura deve ser ensinada como se ensina a música, pois a música não é ensinada fragmentada, pelas notas musicais, e sim a canção como um todo.

A mãe pega no bebê e embala-o, cantando uma canção. E a criança percebe a canção. O que o bebé ouve é a música, e não cada nota, separadamente! E a evidência da sua compreensão está no fato de que ele se tranquiliza e dorme – mesmo nada sabendo sobre notas.

Por que os adultos não podem ler livros só com imagens. Ler o silêncio diz tanto não é mesmo?

  • Amplie o repertório: tanto de palavras quanto de gênero textual. Diversificar cria novas oportunidades.
  • Abra espaço para o momento de escuta: saraus, tertúlias literárias ou até um bate papo descompromissado entre uma aula e outra ou na hora do intervalo, faz toda a diferença. Ver que o outro leu a mesma que estava escrito com outro olhar e outro coração, sem dúvida é umas experiências mais enriquecedoras e transformadoras que uma pessoa pode vivenciar.
  • Torne o momento de ler uma alegria: especialmente para as crianças, vale a pena transformar o momento em uma verdadeira festa. A preparação, o momento de suspense, a entonação, torna o momento mágico e marcante. Possivelmente as crianças não esquecerão a história e o professor será “convidado” a contar a mesma história de novo. E de novo!!! 

Crianças gostam de ler com o professor, com adultos. Permitir que o pequeno estudante leia com o professor, sentado junto e não em frente ao livro, dá a ele a rica oportunidade de observar o comportamento leitor. 

Ler de cima para baixo, da esquerda para direita, são convenções que se aprendem. Como mencionado no início, ler se aprende. Não é inerente à condição humana. É cultural, social.

Permita que seu ouvinte/interlocutor seja agraciado com o seu encantamento pela leitura: Certamente isso transformará vidas.

Se você leu até aqui, talvez se pergunte como será a avaliação. 

Caro professor, se durante o processo e ao final do seu planejamento e de suas ações relativas a despertar nos estudantes o comportamento leitor, você se deparar com alunos que lhe mostram livros ou que puxam assunto querendo saber sua opinião ou se você soube que… (sem ser fofoca) é sinal de que você professor merece uma nota 10.

Não se avalia o ato de ler, sem exceções.

Mas e a entonação? O uso dos sinais gráficos. Eles serão todos aprendidos através da prática e do hábito de ler.

Então professor, se você se tornar ouvinte/interlocutor de seu aluno, parabéns! 

Você encantou e formou um leitor. Um leitor que não lê pela nota na prova ou para circular substantivos ou dígrafos. Um leitor que lê porque quer ler. Quer ler para não se contentar com a rotina. Não se contenta com a rotina porque a leitura dá asas. Porque ter asas é ter liberdade. E ter liberdade é poder escolher. Escolher quem e o que quer ser. Escolher o que ler.